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Caminho da fé: ciclistas de Marechal e região desafiam-se pedalando centenas de quilômetros

O grupo de peregrinos garante que a viagem renova a vida

Geral
ciclismo | 14/03/2019 14h20

O Caminho da Fé (Brasil) foi inspirado no Caminho de Santiago de Compostela (Espanha) (Foto: Arquivo pessoal/Divulgação )

 

De bicicleta, dá para conhecer muitos lugares, em todos os cantos do Estado do Paraná e também fora dele, inclusive fora do Brasil. Um grupo de ciclistas da região completa, em 2019, oito anos peregrinando por centenas de quilômetros em meio à natureza para chegar ao Santuário de Aparecida/SP. Eles percorrem o Caminho da Fé, inaugurado em 11 de maio de 2003 na cidade de Águas da Prata/SP. 

Passando por abençoadas trilhas com diversos sons e paisagens deslumbrantes, os ciclistas peregrinos seguem em preces e orações. Pedem perseverança para quando a estrada fica estreita, esburacada ou lameada. Pedem bençãos aos freios, câmbio e pneus das bicicletas enquanto buscam conhecer novos lugares e pessoas, reavivar sua força interior, agradecer e repensar a vida.

 O Caminho da Fé

O Caminho da Fé (Brasil) foi inspirado no Caminho de Santiago de Compostela (Espanha). Foi criado para dar estrutura às pessoas que sempre fizeram peregrinação ao Santuário Nacional de Aparecida, oferecendo-lhes os pontos de apoio e infraestrutura necessários. O caminho é sinalizado com setas amarelas e placas indicativas, conduzindo peregrinos, de todos os cantos, a pé, à cavalo ou de bicicleta para o maior santuário Mariano do mundo. Em setembro do ano passado, um grupo de rondonenses fez o caminho de moto Biz.

A Rota, que passa pelos dois estados, é composta por cerca de 970 km, dos quais aproximadamente 500 km atravessam a Serra da Mantiqueira em Minas Gerais. Durante o caminho, os peregrinos encontram muita subida, estradas vicinais, trilhas, bosques, cachoeiras, rios e asfalto, proporcionando momentos de reflexão e fé, saúde física e psicológica e integração do homem com a natureza.

Em 15 de agosto de 2003 foi criada a Associação dos Amigos do Caminho da Fé, que ao longo do percurso, fornece aos peregrinos uma rede de pousadas e modestos hotéis, selecionados com preços diferenciados. Nesses locais, são carimbadas as credenciais dos viajantes, que, ao final do trajeto, recebem o certificado de Peregrino Mariano.

O certificado é um documento que o peregrino retira na cidade onde inicia sua trajetória e para recebê-lo precisa percorrer no mínimo 100 km. Após carimbado ele deve ser apresentado na Secretaria da Basílica de Aparecida para recebimento do Certificado de Conclusão.

Antes de sair de Marechal Cândido Rondon, os ciclistas definem toda a programação, dia por dia.

Tudo tem um propósito

Grande parte do propósito em percorrer esse caminho está no ato religioso, muitas pessoas fazem promessas através da fé e vão fazer essa peregrinação pela graça alcançada.

Neste ano, o agricultor rondonense Renato Follmann percorreu o Caminho da Fé pela quinta vez.

Para ele, “o caminho integra o verdadeiro tipo do interior do Brasil religioso e hospitaleiro, acompanhado sempre de cenas tipicamente rurais com rebanho de gado congestionando a estrada, cachorros latindo para proteger pequenas propriedades”. Certamente um caminho inesquecível.

Para ele, como para a maioria que percorre o Caminho da Fé, andar de bike é um hobby.

Seu gosto por pedalar começou quando ainda era criança. “Sempre tive bicicleta. Mas comecei a gostar de Montain Bike em 2011 quando adquiri minha primeira bicicleta do modelo e comecei a participar de viagens para vários lugares desse imenso Brasil”.

Renato fez o caminho neste ano para celebrar uma graça concebida. “Durante anos tentamos ter um segundo filho e graças a uma promessa feita hoje esperamos um menino que estará em nosso meio no mês de abril”, conta.

Os pedaleiros peregrinos

Para percorrer um caminho como este, é necessário estar bem condicionado fisicamente e mentalmente. Os peregrinos ciclistas contam que muitos, quando vão pela primeira vez, se questionam o porquê de fazerem aquele trajeto, mas ao chegar ao Santuário, convidam-se para percorrer o caminho novamente.

Neste ano, foram até o Santuário, dez ciclistas. Alciney de Almeida Luiz, Albani Pacheco, Alexandre Cornachione, Fábio Resmine, Giovani Fim, Marcelo Konzen, Susana Konzen, Ruan Kanitz, Maurílio Conachione e Renato Follmann. Andre Selzlein levou os peregrinos de van até o início do trajeto e Luciano Schaefer foi o motorista do carro de apoio.

O objetivo do carro de apoio é o transporte de água, alimentos, ferramentas, para o percurso de cada dia. E na Van que os levou, o motorista levava as bagagens de cidade em cidade, porém não ia pelas mesmas estradas.

Ruan Kanitz, de 19 anos, atleta de Badminton esteve lá pela primeira vez neste ano e achou o caminho muito difícil. “Mas o grupo me motivou muito, e com certeza que quero ir novamente”.

Como começaram?

Alciney de Almeida Luiz, de 47 anos, cirurgião dentista em Marechal Cândido Rondon jogou futebol grande parte da sua vida, mas em 2008 recebeu o convite para pedalar e acabou comprando uma bike de MTB. “Comecei a praticar esse esporte e acabei me identificando e conhecendo lugares que jamais iria conhecer se não fosse a bicicleta”.

Alciney percorreu o Caminho da Fé pela primeira vez em 2012. Esta é a sexta vez em que peregrina pedalando rumo ao Santuário de Aparecida.

Ele conta que já foram em grupos de oito, 14, 21, 16, cinco e essa vez, de dez ciclistas peregrinos. “Quase sempre são os mesmos ciclistas, mas sempre vai um ou dois pela primeira vez”.

A ideia de começar partiu do grupo que ele faz parte, o “Amigos do Pedal”, em 2012. Na ocasião, foram Lírio, Marcondes, Gustavo Borges, Nico, Marcos Cordeiro, Renato Follmann, Altair Storti e Alciney.

“Os nossos objetivos eram os desafios e o Caminho da Fé por estar entre os dez mais difíceis do mundo e o mais dificil do Brasil”, ele conta.

Dificuldades x Benefícios

Além de estar com amigos e pedalar, que é o que esses peregrinos gostam, os benefícios do caminho são muitos. Permite sair da rotina, extravasar, gritar, rir, chorar, refletir sobre as coisas positivas e negativas que passaram.

Albani Pacheco, morador de Entre Rios do Oeste, é engenheiro agrônomo e tem 50 anos. Vê a pedalada além de um hobby. É uma atividade física e uma terapia”. Ele conta que as maiores dificuldades são justamente as subidas, que são muito íngremes e longas. “Se a pessoa estiver mentalmente despreparada, facilmente irá desistir”.

O entrerriense participa, sempre que possível, das etapas de cicloturismo que acontecem na região toda. “Aqui em Entre Rios, temos um grupo de ciclistas chamado Paçoka's Bike, e aos sábados normalmente fazemos pedais pela região”.

Neste ano, em particular, outra dificuldade que o grupo encontrou foi o clima chuvoso, que provocou a ocorrência de trechos com muito barro, dificultando a pedalada. “O solo daquela região, quando molhado, fica muito "pesado" para pedalar. Eu, particularmente não havia treinado o suficiente, porém como foi minha quarta vez, já sabia das dificuldades que iria encontrar”, conta Albani.

Para os peregrinos, o Caminho da Fé poderia ser um simples caminho, se por ele não passasse tantas histórias e sensações. Ao chegar ao Santuário a emoção toma conta e as dificuldades enfrentadas no caminho valem a pena.

Depois de oito dias, o retorno para casa é gratificante. “Como, muitas vezes, realizamos a viagem pela família, pelos amigos, quando chegamos de volta à nossa casa, para perto das pessoas do nosso convívio e vemos o sorriso de quem nos espera, sentimos a sensação de dever cumprido”, destaca Renato.

Albani diz que o principal benefício é o fortalecimento da fé e a constatação de que é possível superar as limitações, tanto físicas quanto espirituais. “O caminho da fé só pode ser sentido e compreendido por quem o fez. Tudo o que a gente falar, talvez não traduza exatamente o que acontece e o que sentimos. Nós recomendamos essa experiência. Seja caminhando, seja pedalando, é uma experiência de fé, autoconhecimento, companheirismo, superação e acima de tudo, é uma experiência de amor ao próximo. A simplicidade que encontramos nas pessoas durante a jornada é algo inexplicável”, finaliza.

 

 

Leia a matéria na edição impressa do Jornal Tribuna do Oeste desta quinta-feira (14). Você também pode acessá-la no site http://tribunadooeste.com na Edição 55, do dia 14 de março de 2019, nas páginas 06 e 07.

Tribuna do Oeste é o jornal dos municípios, ele circula todas as quintas-feiras em Marechal Cândido Rondon, Nova Santa Rosa, Mercedes, Entre Rios do Oeste, Pato Bragado e Quatro Pontes. Informações e assinaturas: 3254-7886 ou 99974-3988.

Com informações de Redação do Jornal Tribuna do Oeste


  


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